29.10.21

A PRÉ-REFORMA PROTESTANTE: QUE VENHA O JUÍZO!

 

A PRÉ-REFORMA PROTESTANTE

"QUE VENHA O JUIZO!"

 

No final da idade média, nos séculos XIV e XV, a organização religiosa ocidental Cristã Romana na qual os homens acreditavam ser o papado o centro da sociedade cristã na terra e que era essencial não somente para a vida religiosa mas também para sancionar o governo político, começa a desmoronar haja vista a credibilidade estar abalada profundamente.  A desmoralização da Igreja Ocidental Romana ou Igreja Católica Romana, atingiu o ápice no século XV em função de práticas e condutas condenáveis que já não podiam mais ser ignoradas passando portanto a serem questionadas em contextos éticos e morais como a imoralidade, adulteração da fé, corrupção do clero e descaso com os fiéis. Observa-se que o Cativeiro Babilônico em Avignon e o Grande Cisma do papado em 1378, uma tragicomédia de um Papa excomungando outro Papa seguiu revelando deficiências fundamentais que claramente apontavam para necessidades de reformas urgentemente profundas e já tardias. Ressalta-se que reformas básicas estavam em curso, mas, após o fracasso do movimento conciliar, nenhuma reforma significativa saiu da igreja de Roma, e a concepção de que o papado era o canal da vontade de Deus foi morrendo aos poucos. De fato, Desde o século XII vários movimentos contrários às atitude, condutas e preceitos gerais adotados pela Igreja Ocidental Romana surgiram com o intuito de uma reforma no culto, na comunhão, na ética e comportamento do clero e na extinção de excessos praticados e vividos de uma vida secular, mundana e até mesmo promíscua recheada de vaidades e a margem dos ensinamentos das Escrituras Sagradas.


Neste contexto, no final do século XIV, o Padre, teólogo e doutor John Wycliff (1328 a 1384 d.C.) formulou e divulgou uma série de críticas observadas e direcionadas às doutrinas da igreja ocidental romana na época e que iriam inspirar John (Jan) Huss (1369 a 1415 d.C.) aproximadamente cinquenta anos mais tarde seguido de Martinho Lutero pouco mais de um século depois. Dentre as críticas proferidas por Wycliff estavam a afirmação feita por ele e antecipadamente a Lutero de que a salvação era conseguida e justificada através e somente pela fé em Deus, afirmativa que destruiria qualquer barreira entre Deus e os fiéis. Bem como o posicionamento contrário à venda de indulgências bastante praticada na época. Se posicionando também firmemente contra a doutrina católica que afirmava que com a realização de “boas obras” (como doações à igreja) se poderia conseguir a salvação eterna. Escreveu “o Papa é o princípio da mentira. Cristo viveu na pobreza; o papa trabalha em troca de magnificência mundana. Cristo recusou o domínio temporal; o Papa procura”

            B. Shelley em seu livro História do Cristianismo – 2020, descreve “o reformador de Oxford desprezava a concepção de que todos os Bispos de Roma deveriam estar acima da cristandade só porque Pedro havia morrido em Roma... Somente Cristo, declarou Wycliff, é o cabeça da Igreja. A instituição Papal é cheia de veneno. O Papa é o próprio anticristo, o homem de pecado que se exalta acima de Deus. Então que venha o juízo!”

            Wycliff teria ainda mergulhado numa discussão perigosa argumentando que o governo inglês, dotado de responsabilidades divinamente atribuídas, deveria corrigir e até penalizar eventuais abusos praticados pela igreja romana nos domínios territoriais do reinado inglês, podendo depor eclesiásticos pecadores reincidentes e até mesmo podendo confiscar propriedades de oficiais corruptos da Igreja Católica Romana.

            Wycliff era um predestinacionista absoluto e acreditava na doutrina de uma igreja invisível de eleitos pois, defendia uma Igreja na terra contendo “apenas homens que serão salvos”. Ele acrescentava que nenhum homem tinha ciência se fazia parte da Igreja ou se era membro do Diabo. A Igreja idealizada por Wycliff desconheceria primados e hierarquias Papais, seitas de monges, frades e sacerdotes; acreditava ainda que a salvação do eleito não é condicionada por missas, indulgências, penitências ou outro qualquer artificio do sacerdócio. Wycliff conservou sua crença em purgatório e extrema-unção porém criticou fortemente os perdões, indulgencias, absolvições, adoração de imagens, adoração de santos e a distinção entre pecados mortais e veniais. Fez ponderações referentes as imagens aceitando-as em caso de aumento da devoção assim como a oração aos santos as quais julgava não serem necessariamente erradas. Exortou ainda que nenhum testemunho, mesmo sendo de santos, deveriam ser aceitos se não tivessem embasamento nas Escrituras e defendia que “ A Lei de Cristo” é melhor e suficiente e sendo assim, todo homem deveria ter acesso a Bíblia por si só.

            O movimento de Wycliff, restringido na Inglaterra por imposição da poderosa Igreja Católica Romana, continuou mesmo assim e expandiu-se na Boêmia, terra de Huss. Inglaterra e Boêmia foram ligadas mediante o casamento do Rei Ricardo II com Anne da Boêmia em 1383, um ano antes da morte de Wycliff em 1384. A expansão do movimento lançado por Wycliff na Boêmia se deu em função da adesão de um forte partido nacional liderado por John Huss, Reformador Tcheco nascido no sul da Boêmia, filho de camponeses, Bacharel em Teologia pela Universidade de Praga (1394) e Mestre em Teologia (1396), antes de começar a lecionar já acreditava nas causas da reforma influenciado pelos escritos filosóficos de Wycliff. Mas, os escritos teológicos de Wycliff  havia escrito, Huss só veio a conhecer após sua ordenação e nomeação como reitor e pregador na Capela de Belém, adotando de imediato a visão do reformador Inglês.

 

Viajem sem volta.
Huss se apresenta para dar explicação à seus inquisetores.

            Huss mandou pintar nas paredes da capela imagens contrastando a vida do Papa com a de Cristo. Os sermões inflamados de Huss na língua Boêmia encontrou grande apoio popular surgiram porém, manifestações diversas a favor e contra as ideias de Wycliff. Incomodada, a Igreja Romana o considerou herege que excomungou Huss e eclodiu um grande levante popular neste momento, Huss atacou abertamente a venda de indulgencias para financiamento da guerra contra Nápoles. Irado, o Papa mandou interditar as Igrejas de Praga e por isso Huss foi exilado no sul da Boêmia onde escreveu sua grande obra SOBRE A IGREJA baseado em Wycliff. Por conselho do Imperador Sigismundo, tendo em vista o Concilio de Constança que acontecia, Huss viajou para por-se à presença das autoridades reunidas para expor seus pontos de vista mas, foi vitimado pela inquisição sendo queimado na fogueira em 6 de julho de 1415.

Neste cenário obscuro em que se aproxima o final da Idade das Trevas, tempos difíceis mas que Deus jamais dormiu, não obstante diversos movimentos anteriores que objetivaram a reforma da Igreja Romana não terem obtido sucesso, surgem na Europa estes dois pré-reformadores John WYCLIFF (1328 a 1384 d.C.) e John HUSS (1369 a 1415 d.C.) que embora não tenham galgado êxito e terminarem por serem perseguidos de forma vil pela Igreja de Roma e seus asseclas; sendo calado, repudiado, boicotado no caso de Wicliff que, dispensado da universidade, foi deixado em paz no final da vida em sua paróquia em Lutterworth, onde morreu em 1384 aos 56 anos; ou martirizado como no caso de Huss que foi humilhado e queimado vivo como herege em 1415, os dois heróis deixaram como herança sementes valiosas plantadas no terreno da inconformidade com os rumos tomados pela Igreja Romana à luz das Escrituras Sagradas que germinaram, criaram raízes, cresceram e rederam frutos cujas novas sementes espalharam-se pela Europa Ocidental vindo a influenciar, de alguma forma, 102 anos mais tarde, já no século XVI, a atitude da afixação das noventa e cinco teses na porta da Igreja de Wittenberg na Alemanha por parte de Martinho Lutero culminando na Reforma Protestante seguido, tendo como consequências a ampliação da alfabetização para um número maior de pessoas, pois anteriormente apenas os membros do clero sabiam ler a bíblia e expressar a interpretação dos textos sagrados aos fiéis.

 


Segundo a tradição da Igreja Theca, Huss teria dito ao seu carrasco: “Hoje vocês assam um ganso, porém, daqui a cem anos, vocês verão nascer um cisne”, um trocadilho com seu sobrenome, que significa literalmente “ganso”. Cento e dois anos depois, em 1517, Martinho Lutero fixaria suas noventa e cinco teses na porta da igreja de Wittemberg! (Prof. Cláudio Correia dos Reis - FABAD).

 Para os três reformadores, Wycliff, Huss e Lutero, a Igreja deveria seguir os passos de Jesus Cristo, mantendo uma Igreja pobre, preocupada com a Evangelização e não com o acúmulo material e mantendo sempre os preceitos das Escrituras Sagradas acima da tradição.

E finalmente, salienta-se que nesse período importante, entre o fim da Idade Média e início da Idade Moderna, os desentendimentos religiosos tomaram forma de conflito social uma vez que o poder da Igreja constituía e misturava-se com o poder econômico. Uma Igreja aliada à aristocracia representante da classe dominante da sociedade na época.

Sendo a Igreja católica a maior latifundiária da Europa, bem como a posição social da aristocracia ser fundamentada por uma suposta vontade divina, as lutas dos camponeses e demais classes populares contra a exploração acabava atingindo os conceitos religiosos que justificavam ideologicamente a situação social. Esses conflitos levariam à diminuição da influência da Igreja Católica, com o início de um novo período histórico marcado pela força do capitalismo cujo modelo econômico teria embasamentos sociais influenciados, doutrinados e reeducados pelos ensinamentos do movimento Reformador ou Protestante. Mas, isso é uma outra história.

 Por Carlos E. Altman Ferreira - Out/2021.


 

 

           

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