A PRÉ-REFORMA PROTESTANTE
"QUE VENHA O
JUIZO!"
No final da idade
média, nos séculos XIV e XV, a organização religiosa ocidental Cristã Romana na
qual os homens acreditavam ser o papado o centro da sociedade cristã na terra e
que era essencial não somente para a vida religiosa mas também para sancionar o
governo político, começa a desmoronar haja vista a credibilidade estar abalada
profundamente. A desmoralização da
Igreja Ocidental Romana ou Igreja Católica Romana, atingiu o ápice no século XV
em função de práticas e condutas condenáveis que já não podiam mais ser
ignoradas passando portanto a serem questionadas em contextos éticos e morais
como a imoralidade, adulteração da fé, corrupção do clero e descaso com os
fiéis. Observa-se que o Cativeiro Babilônico em Avignon e o Grande Cisma do
papado em 1378, uma tragicomédia de um Papa excomungando outro Papa seguiu
revelando deficiências fundamentais que claramente apontavam para necessidades
de reformas urgentemente profundas e já tardias. Ressalta-se que reformas
básicas estavam em curso, mas, após o fracasso do movimento conciliar, nenhuma
reforma significativa saiu da igreja de Roma, e a concepção de que o papado era
o canal da vontade de Deus foi morrendo aos poucos. De fato, Desde o século XII
vários movimentos contrários às atitude, condutas e preceitos gerais adotados
pela Igreja Ocidental Romana surgiram com o intuito de uma reforma no culto, na
comunhão, na ética e comportamento do clero e na extinção de excessos
praticados e vividos de uma vida secular, mundana e até mesmo promíscua
recheada de vaidades e a margem dos ensinamentos das Escrituras Sagradas.
Neste contexto, no final do século XIV, o Padre, teólogo
e doutor John Wycliff (1328 a 1384
d.C.) formulou e divulgou uma série de críticas observadas e
direcionadas às doutrinas da igreja ocidental romana na época e que iriam
inspirar John (Jan) Huss (1369 a 1415 d.C.) aproximadamente cinquenta anos mais
tarde seguido de Martinho Lutero pouco mais de um século depois. Dentre as
críticas proferidas por Wycliff estavam a afirmação feita por ele e
antecipadamente a Lutero de que a salvação era conseguida e justificada através
e somente pela fé em Deus, afirmativa que destruiria qualquer barreira entre
Deus e os fiéis. Bem como o posicionamento contrário à venda de indulgências
bastante praticada na época. Se posicionando
também firmemente contra a doutrina católica que afirmava que com a realização
de “boas obras” (como doações à igreja) se poderia conseguir a salvação eterna.
Escreveu “o Papa é o princípio da mentira. Cristo viveu na pobreza; o papa
trabalha em troca de magnificência mundana. Cristo recusou o domínio temporal;
o Papa procura”
B.
Shelley em seu livro História do Cristianismo – 2020, descreve “o reformador de
Oxford desprezava a concepção de que todos os Bispos de Roma deveriam estar
acima da cristandade só porque Pedro havia morrido em Roma... Somente Cristo,
declarou Wycliff, é o cabeça da Igreja. A instituição Papal é cheia de veneno.
O Papa é o próprio anticristo, o homem de pecado que se exalta acima de Deus.
Então que venha o juízo!”
Wycliff
teria ainda mergulhado numa discussão perigosa argumentando que o governo
inglês, dotado de responsabilidades divinamente atribuídas, deveria corrigir e
até penalizar eventuais abusos praticados pela igreja romana nos domínios
territoriais do reinado inglês, podendo depor eclesiásticos pecadores reincidentes
e até mesmo podendo confiscar propriedades de oficiais corruptos da Igreja
Católica Romana.
Wycliff
era um predestinacionista absoluto e acreditava na doutrina de uma igreja
invisível de eleitos pois, defendia uma Igreja na terra contendo “apenas homens
que serão salvos”. Ele acrescentava que nenhum homem tinha ciência se fazia
parte da Igreja ou se era membro do Diabo. A Igreja idealizada por Wycliff
desconheceria primados e hierarquias Papais, seitas de monges, frades e
sacerdotes; acreditava ainda que a salvação do eleito não é condicionada por
missas, indulgências, penitências ou outro qualquer artificio do sacerdócio.
Wycliff conservou sua crença em purgatório e extrema-unção porém criticou
fortemente os perdões, indulgencias, absolvições, adoração de imagens, adoração
de santos e a distinção entre pecados mortais e veniais. Fez ponderações
referentes as imagens aceitando-as em caso de aumento da devoção assim como a
oração aos santos as quais julgava não serem necessariamente erradas. Exortou
ainda que nenhum testemunho, mesmo sendo de santos, deveriam ser aceitos se não
tivessem embasamento nas Escrituras e defendia que “ A Lei de Cristo” é melhor
e suficiente e sendo assim, todo homem deveria ter acesso a Bíblia por si só.
O
movimento de Wycliff, restringido na Inglaterra por imposição da poderosa
Igreja Católica Romana, continuou mesmo assim e expandiu-se na Boêmia, terra de
Huss. Inglaterra e Boêmia foram ligadas mediante o casamento do Rei Ricardo II
com Anne da Boêmia em 1383, um ano antes da morte de Wycliff em 1384. A
expansão do movimento lançado por Wycliff na Boêmia se deu em função da adesão de
um forte partido nacional liderado por John Huss, Reformador Tcheco nascido no
sul da Boêmia, filho de camponeses, Bacharel em Teologia pela Universidade de
Praga (1394) e Mestre em Teologia (1396), antes de começar a lecionar já
acreditava nas causas da reforma influenciado pelos escritos filosóficos de
Wycliff. Mas, os escritos teológicos de Wycliff havia escrito, Huss só veio a conhecer após
sua ordenação e nomeação como reitor e pregador na Capela de Belém, adotando de
imediato a visão do reformador Inglês.
Huss
mandou pintar nas paredes da capela imagens contrastando a vida do Papa com a
de Cristo. Os sermões inflamados de Huss na língua Boêmia encontrou grande
apoio popular surgiram porém, manifestações diversas a favor e contra as ideias
de Wycliff. Incomodada, a Igreja Romana o considerou herege que excomungou Huss
e eclodiu um grande levante popular neste momento, Huss atacou abertamente a
venda de indulgencias para financiamento da guerra contra Nápoles. Irado, o
Papa mandou interditar as Igrejas de Praga e por isso Huss foi exilado no sul
da Boêmia onde escreveu sua grande obra SOBRE A IGREJA baseado em Wycliff. Por
conselho do Imperador Sigismundo, tendo em vista o Concilio de Constança que
acontecia, Huss viajou para por-se à presença das autoridades reunidas para
expor seus pontos de vista mas, foi vitimado pela inquisição sendo queimado na
fogueira em 6 de julho de 1415.
Neste cenário obscuro
em que se aproxima o final da Idade das Trevas, tempos difíceis mas que Deus
jamais dormiu, não obstante diversos movimentos anteriores que objetivaram a
reforma da Igreja Romana não terem obtido sucesso, surgem na Europa estes dois
pré-reformadores John WYCLIFF (1328 a 1384 d.C.) e John HUSS (1369 a 1415 d.C.)
que embora não tenham galgado êxito e terminarem por serem perseguidos de forma
vil pela Igreja de Roma e seus asseclas; sendo calado, repudiado, boicotado no caso
de Wicliff que, dispensado da universidade, foi deixado em paz no final da vida
em sua paróquia em Lutterworth, onde morreu em 1384 aos 56 anos; ou martirizado
como no caso de Huss que foi humilhado e queimado vivo como herege em 1415, os
dois heróis deixaram como herança sementes valiosas plantadas no terreno da inconformidade com os
rumos tomados pela Igreja Romana à luz das Escrituras Sagradas que germinaram, criaram raízes, cresceram e rederam
frutos cujas novas sementes espalharam-se pela Europa Ocidental vindo a influenciar, de alguma forma, 102
anos mais tarde, já no século XVI, a atitude da afixação das noventa e cinco
teses na porta da Igreja de Wittenberg na Alemanha por parte de Martinho Lutero
culminando na Reforma Protestante seguido, tendo como consequências a
ampliação da alfabetização para um número maior de pessoas, pois anteriormente
apenas os membros do clero sabiam ler a bíblia e expressar a interpretação dos
textos sagrados aos fiéis.
Segundo a tradição da Igreja Theca, Huss teria dito ao seu carrasco: “Hoje vocês assam um ganso, porém, daqui a cem anos, vocês verão nascer um cisne”, um trocadilho com seu sobrenome, que significa literalmente “ganso”. Cento e dois anos depois, em 1517, Martinho Lutero fixaria suas noventa e cinco teses na porta da igreja de Wittemberg! (Prof. Cláudio Correia dos Reis - FABAD).
Para os três reformadores, Wycliff, Huss e
Lutero, a Igreja deveria seguir os passos de Jesus Cristo, mantendo uma Igreja
pobre, preocupada com a Evangelização e não com o acúmulo material e mantendo
sempre os preceitos das Escrituras Sagradas acima da tradição.
E finalmente, salienta-se
que nesse período importante, entre o fim da Idade Média e início da Idade
Moderna, os desentendimentos religiosos tomaram forma de conflito social uma
vez que o poder da Igreja constituía e misturava-se com o poder econômico. Uma
Igreja aliada à aristocracia representante da classe dominante da sociedade na
época.
Sendo a Igreja católica
a maior latifundiária da Europa, bem como a posição social da aristocracia ser
fundamentada por uma suposta vontade divina, as lutas dos camponeses e demais
classes populares contra a exploração acabava atingindo os conceitos religiosos
que justificavam ideologicamente a situação social. Esses conflitos levariam à
diminuição da influência da Igreja Católica, com o início de um novo período histórico
marcado pela força do capitalismo cujo modelo econômico teria embasamentos
sociais influenciados, doutrinados e reeducados pelos ensinamentos do movimento
Reformador ou Protestante. Mas, isso é uma outra história.
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